quinta-feira, 28 de maio de 2009

ACORDO ORTOGRÁFICO - USO DO HÍFEN


O uso do hífen está entre os três erros mais comuns da língua portuguesa, ao lado da crase e da concordância. O novo Acordo Ortográfico procurou simplificar o uso, mas não conseguiu resolver de todo a questão.

Não há grandes divergências quanto ao uso do hífen no Brasil e em Portugal; o que existe são várias oscilações e duplas grafias, fatores que guiaram a composição das novas regras, reformulando algumas normas de modo a torná-las mais claras e trazendo inovações em outros campos.

Confira abaixo como usar corretamente este famigerado tracinho depois do Acordo Ortográfico.

USE O HÍFEN

1) Em palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação, e cujos elementos (que podem ser substantivos, adjetivos, numerais ou verbos) perderam sua significação própria e formam uma nova unidade morfológica e de sentido, mas mantêm o acento próprio. O primeiro elemento da palavra pode, ainda, estar reduzido. Exemplos: ano-luz, arco-íris, guarda-noturno, azul-escuro, segunda-feira, conta-gotas etc.

2) Em nomes de lugares (topônimos) iniciados por grão ou grã, por verbos e quando houver artigos em seus elementos. Exemplos: Grã-Bretanha, Santa Rita do Passa-Quatro, Baía de Todos-os-Santos.
Os outros topônimos compostos são escritos com os elementos separados, sem uso do hífen. Exemplos: América do Sul, Belo Horizonte, Cabo Verde, Castelo Branco etc.

Atenção: Há uma exceção aceita para essa regra: Guiné-Bissau

3) Nas palavras compostas que designam espécies botânicas e zoológicas, estejam elas ligadas ou não por preposição ou qualquer outro elemento. Exemplo: couve-flor, erva-doce, feijão-preto, cobra-d'água, bem-te-vi etc.

Caso curioso: a palavra "bico de papagaio" pode tanto ser uma planta como um problema da coluna vertebral. Quando escrever sobre a planta, use "bico-de-papagaio", pois nome de espécie botânica agora exige hífen. Mas quando for reclamar da dor nas costas, escreva "bico de papagaio", sem hífen.

4) Nas formações que começarem por bem ou mal e em que o segundo elemento for iniciado por vogal ou "h": bem-aventurado, bem-humorado, mal-educado, mal-estar etc.

Mas atenção: O advérbio "bem", ao contrário de "mal", pode não se aglutinar com palavras começadas por consoante, visto que, em português, o "m" só é usado antes de palavras com "p" e "b". Eis alguns exemplos: Bem-vindo, bem-criado (mas malcriado), bem-ditoso (mas malditoso), bem-falante (mas malfalante), bem-visto (mas malvisto).

Além disso, em muitos compostos, o"bem" aparece aglutinado com o segundo elemento, quer este tenha ou não vida à parte: benfazejo, benfeitor, benfeitoria, benquerença etc.

5) Se o primeiro elemento da palavra composta for "além", "aquém", "recém" ou "sem". Exemplos: além-mar, aquém-mar, recém-casado, sem-vergonha etc.

6) Para ligar duas ou mais palavras que ocasionalmente se combinam, formando, não propriamente vocábulos, mas encadeando vocabulares. Alguns exemplos: Ponte Rio-Niterói, percurso Lisboa-Coimbra-Porto, ligação Angola-Moçambique, a divisa Liberdade-Igualdade-Fraternidade etc.
O mesmo vale para combinações históricas ou ocasionais de elementos geográficos, tais como: Alsácia-Lorena, Angola-Brasil, Tóquio-Rio de Janeiro etc.

7) Em ralação aos prefixos, o hífen passa a ser empregado em todas as composições em que o segundo elemento começa por "h": anti-higiênico, co-herdeiro, pré-história, super-homem, semi-hospitalar etc.
A exceção é "subumano", em que a palavra "humano" se aglutina com o prefixo e perde o "h"; e em formações que contêm os prefixos "des-" e "in-". Nesses asos, o segundo elemento da palavra perde o "h" inicial: desumano, desumidificar, inábil, inumano etc.

8) Use o hífen também nas palavras em que o prefixo termina com a mesma vogal com a qual se inicia o segundo elemento: anti-ibérico, auto-observação, micro-ondas, semi-interno etc.

Atenção: O prefixo "co-" em geral aglutina-se com o segundo elemento da palavra, mesmo quando iniciado por "o": coobrigação, coordenar, cooperação, cooperar etc.

9) O hífen cabe ainda nas formações com os prefixos "circum-" e "pan-" quando o segundo elemento começa por vogal, "m" ou "n" ( além de "h", caso em que todos os prefixos se encaixam): circum-navegação, pan-africano etc.

10) Use o hífen nas formações com os prefixos "hiper-", "inter-" e "super-", quando eles são combinados com elementos iniciados por "r": hiper-requintado, inter-resistente, super-revista etc.
No entanto, os outros casos não aceitam hífen: hipermercado, intermunicipal, superproteção etc.

11) Sempre se usa hífen nas formações com os prefixos "ex-" (com o sentido de estado anterior ou cessamento), "sota-", "soto-", "vice-" e "vizo-" (forma de "vice" em português antigo). Exemplos: ex-diretor, ex-presidente, soto-mestre, vice-presidente, vizo-rei etc.

12) Emprega-se hífen nas formações com os prefixos tônicos acentuados graficamente "pós-", "pré-" e "pró-", quando o segundo elemento tem vida à parte (ao contrário do que acontece com as correspondentes formas átonas que se aglutinam com o elemento seguinte). Exemplos: pós-graduação (mas pospor), pré-natal (mas prever), pró-europeu (mas promover) etc.

13) Com o prefixo "sub-", usa-se hífen se o segundo elemento for iniciado por "b" ou "r": sub-ração, sub-bibliotecário etc.

14) No caso das palavras formadas por sufixação, o hífen só é empregado nos vocábulos terminados por sufexos de origem tupi-guarani com valor de adjetivo, como "açu", "guaçu" e "mirim", quando o primeiro elemento for uma palavra terminada em vogal que levar acento ou quando a pronúncia o exigir: amoré-guaçu, anajá-mirim, andá-açu, capim-açu, Ceará-Mirim etc.

15) O hífen é empregado na ênclise e na mesóclise (também chamada de tmese): amá-lo, deixa-o, partir-lhe, amá-lo-ei, enviar-lhe-emos etc.

16) O hífen também é usado nas formas dos verbos "querer" e "requerer" consagradas pelo uso, como quere-o(s) e requere-o(s). Neste contextos, as formas legítimas pela norma culta , qué-lo e requé-lo são pouco usadas.

17) Usa-se também o hífen para ligar as formas pronominais enclíticas ao advérbio "eis" (eis-me, ei-lo). Nas próclises, o hífen é usado nas combinações de formas pronominais do tipo no-lo, vo-las.
Os leitores da Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas (uma tradução da Bíblia) estão acostumados com esses usos, como em João 16:23 que diz:
"E naquele dia não me fareis absolutamente nenhuma pergunta. Eu vos digo em toda a verdade: Se pedirdes ao Pai qualquer coisa, ele vo-la dará em meu nome".

É provável que os tradutores da Tradução do Novo Mundo tenham feito uma tradução com intenção de ser usada também pelos leitores luzitanos, pois esse uso é mais recorrente em Portugal.


NÃO USE O HÍFEN


1) Nas palavras compostas nas quais se perdeu , em certa medida, a noção de composição, passando a ganhar um significado próprio. Essas palavras passam a ser grafadas de maneira aglutinada: Exemplos: paraquedas, paraquedista, mandachuva, parachoque, cabracega, ferrovelho, bateboca, tocafitas etc.

2) Não se emprega hífen nas locuções:
a) substantivas: fim de semana, cão de guarda, sala de jantar etc.
b) adjetivas: café com leite, cor de vinho, cor de café etc.
c) pronominais: nós mesmos, cada um, ele próprio etc.
d) adverbiais: à vontade, de mais, depois de amanhã etc.
e) prepositivas: a fim de, enquanto a, quanto a
f) conjuncionais: logo que, ao passo que, visto que

Atenção: São aceitas exceções de casos já consagrados pelo uso, como: água-de-colônia, arco-da-velha, cor-de-rosa, pé-de-meia, à queima-roupa etc.

3) Não se emprega hífen nas palavras com prefixos nas seguintes situações:

a) Quando o prefixo termina em vogal (como micro, contra, anti) e o segundo elemento começa por "r" ou "s". Nesses casos, o "r" ou "s" serão duplicados. Por exemplo: antirreligioso, antissemita, contrarregra, cosseno, biorritmo, microssistema etc.

b) Quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por vogal diferente. Assim: antiaéreo, extraescolar, aeroespacial, autoestrada, agroindustrial, plurianual etc.

4) Não se emprega hífen nas ligações da preposição "de" às formas monossilábicas do presente do indicativo do verbo haver: hei de, hás de, hão de etc.


Um lembrete: Se na hora de pular de uma linha para outra a palavra com hífen precisar ser quebrada e a separação coincidir com o fim de um dos elementos, deve-se repetir o hífen na linha seguinte. Por exemplo:

ex-
-alferes;

vice-
-almirante.


Ita est!
Prof. Zanon

Referência:
REFORMA ORTOGRÁFICA DA LÍNGUA PORTUGUESA. São Paulo: Editora Escala, 2009.

terça-feira, 26 de maio de 2009

ATENÇÃO VESTIBULANDOS - Cuidado com o "Bruxo do Cosme Velho"!


Memórias Póstumas de Brás Cubas
é considerada a obra que inaugurou o Realismo no Brasil, em 1880. O escárnio que marcaria todo trabalho posterior do "Bruxo do Cosme Velho" apareceu pela primeira vez - e de modo nada complacente - nas histórias de Brás Cubas, que, morto, dedica seu relato ao "verme que primeiro roeu as frias carnes" de seu cadáver. Essa insólita narrativa é fundamental para entender o maior escritor brasileiro e sua obra. Por isso, é a mais requisitada em vestibulares.

Sutilezas

As questões que versam sobre interpretação de texto geralmente exploram os antagonismos e as incoerências sutis de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Uma prova recente da segunda fase da Fuvest, por exemplo, usou como referência o capítulo "O estrume", que possui dois paralelismos curiosos: "medianeira não era melhor que concubina" e "o vício é muitas vezes o estrume da virtude".
Sobre o primeiro, pergunta-se simples e explicitamente qual diferença existe entre os ofícios atribuídos a dona Plácida, "medianeira" (espécie de alcoviteira, ou seja, intermediária da relação entre Brás Cubas e Virgília) e "concubina" (no século 19, um eufemismo de cortesã, prostituta).
Já a relação entre virtude e vício é questionada sob o âmbito da procedência, permitindo uma comparação com a máxima maquiavélica "os fins justificam os meios". Condições socioculturais desonestas produzem atitudes também desonestas, aproximando facilmente acepções antagônicas como "vício" e "virtude".

Metalinguagem

Por se tratar de uma obra narrada na primeira pessoa, como se fosse escrita de próprio punho por Brás Cubas, o recurso da metalinguagem também acaba sendo explorado nas provas de vestibular. Ele aparece na obra repetidamente, para além da introdução e de necessidades vocativas ("caro leitor"). É empregado explicitamente no capítulo "O Senão do Livro", em que o narrador diz se arrepender de escrever suas memórias pelo fato de o leitor não o compreender.
O exame da PUC-SP de 2006 cita o trecho: "este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem".
Outro exemplo metalinguístico constantemente citado nos vestibulares é o último capítulo, no qual se lê "Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. (...) Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento".
É importante estar atento para a ambiguidade inerente à metalinguagem, que pode confundir o vestibulando. Afinal, o livro é de Machado ou de Brás Cubas? É dos dois, mas este pertence ao universo literário daquele, assim como emplasto, humanitismo e Virgília. É preciso cuidado para separar realidade e ficção ao responder perguntas sobre o contexto histórico e social da obra.

Ambiguidade

Uma questão da prova de Língua Portuguesa da Federal de São Carlos (UFSCar) de 2005 trazia como referência o seguinte trecho do capítulo "A promessa", de Dom Casmurro:


"Ela servia de sacristão, e alterávamos o ritual, no sentido de dividir a hóstia entre nós; a hóstia era sempre doce. No tempo em que brincávamos assim, era muito comum ouvir a minha vizinha: "Hoje há missa?" Eu já sabia o que isso queria dizer, respondia afirmativamente, ia pedir hóstia por outro nome. Voltava com ela, arranjávamos o altar, engrolávamos o latim e precipitávamos as cerimônias. Dominus non sum dignus... Isto, que eu devia dizer três vezes, penso que só dizia uma, tal era a gulodice do padre e do sacristão. Não bebíamos vinho nem água; não tínhamos o primeiro, e a segunda viria tirar-nos o gosto do sacrifício".

A pergunta se desdobrava em três:

Uma abordava a escola literária de Machado (sem conexão direta com o trecho) e duas eram interpretativas. O texto é recheado de duplicidade e de metáforas discretas, quase cifradas, como a representação do sacristão e do padre por Capitu e Bentinho, os quais, na cronologia do romance, se casariam anos depois. "Gulosos", apressavam a cerimônia para "dividir a hóstia" - na verdade, um doce -, sobre a qual não bebiam água para não tirar o "gosto do sacrifício" - na verdade, um pecado (gula).
É essa atmosfera ambígua e sensual que recheia Dom Casmurro e volta a aparecer nas questões de vestibular.
No exame da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) de 2005 é usado um trecho do antológico capítulo "Olhos de ressaca". A expressão que norteia o capítulo não aparece de modo explícito no texto, mas é uma metáfora perfeita (paradoxalmente sutil e destacada da narrativa) que diz respeito a outra metáfora bastante lírica - esta sim, dentro do texto. A questão da Uerj pede que se identifique qual linha em especial estabelece esse paralelo entre os olhos de Capitu e a movimentação do mar. É a que encerra o capítulo: "grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã".

Geralmente as questões de vestibular sobre Machado de Assis abordam as recorrentes ironias, metáforas e duplicidades do texto do escritor. Machado surpreende a cada página com sua ironia cortante e, acima de tudo, com a inteligência que insiste em driblar até o leitor mais perspicaz. Por isso, o leitor inexperiente precisa, além de ler suas obras, recorrer a fartura de material de pesquisa disponível em bons sites na internet, que ajudam a ampliar sua visão interpretativa.

Abaixo dois sites que eu recomendo:

Academia Brasileira de Letras (ABL)
A página reúne a obra do autor organizada por gêneros textuais. O site presta-se a um excelente serviço para quem pretende aprofundar interpretações da ficção do autor.
http://www.machadodeassis.org.br/

Domínio Público
Disponibiliza vários textos integrais do escritor gratuitamente. Há uma lei que autoriza a livre publicação de obras literárias a partir do 70º ano da morte do autor.
http://portal.mec.gov.br/machado/

Jornal de Poesia
O mais completo site de pesquisa sobre a produção literária brasileira. Apresenta excelente coleção de poemas de Machado de Assis e de textos críticos sobre o autor.
http://www.jornaldepoesia.jor.br/machado.html

Ita est!
Prof. Zanon

Referências:
Revista DISCUTINDO LITERATURA. São Paulo: Editora Escala, 2008. p. 64-65.
ALVES, Roberto. Machado de Assis. Contos Escolhidos. Coleção clássicos da literatura. Barueri-SP: RR Donnelley, s/ data.


Pérolas do mestre Machado de Assis

Machado de Assis - Caricatura: Spacca

"Não te irrites se te pagarem mal um benefício; antes cair das nuvens que de um terceiro andar."

"A melhor definição do amor não vale um beijo."

"O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede. Conheço um que já devorou três gerações da minha família."

"Não precisa correr tanto; o que tiver de ser seu às mãos lhe há de ir."

"O medo é um preconceito dos nervos. E um preconceito desfaz-se. Basta a simples reflexão."

"O tempo é um rato roedor das coisas, que as diminui ou altera no sentido de lhes dar outro aspecto."

"A primeira glória é a reparação dos erros."

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo.











LÍNGUA PORTUGUESA

Olavo Bilac

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o tom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


(poema extraído do livro "Poesias", Livraria Francisco Alves - Rio de Janeiro, 1964, pág. 262.)

Ita est!
Prof. Zanon

quinta-feira, 14 de maio de 2009

ACORDO ORTOGRÁFICO - ACENTUAÇÃO

Vários acentos desapareceram. Mas não comemore. Não foram tantos assim. O acento grave, da crase, pesadelo para muita gente, vai ficar como está. Relembrando: Crase é a fusão da preposição "a" com os artigos "a" ou "as", ou da preposição "a" com os pronomes demonstrativos "a(s)", "aquela(s)", "aquele(s)", "aquilo". Por exemplo, em "ir à biblioteca" temos que usar o acento grave para indicar que houve uma fusão da preposição "a" com o artigo "a".
As mudanças principais ocorreram nas palavras com a penúltima sílaba pronunciada mais forte, as paroxítonas.

1-) Os ditongos (vogais pronunciadas juntas) "ei" e "oi" perderam o acento:

Exemplos: idéia, heróico, Coréia e paranóia agora devem ser escritos assim: ideia, heroico, Coreia e paranoia.

Mas atenção! Não confunda: A palavra "herói" conservou seu acento, pois apesar de também ter o ditongo "oi", a palavra é oxítona - tem a última sílaba forte.

2-) Os seguintes hiatos (duas vogais juntas, pronunciadas uma de cada vez) perderam o acento.

Primeiro caso: O "i" e o "u" com pronúncia mais forte (tônicos), quando vierem após uma sequência de duas vogais (ditongo). Exemplos: feiúra, Sauípe e Guaíba agora são escritos assim: feiura, Sauipe e Guaiba.

Atenção!
O acento de Piauí permaneceu. Apesar de o "i" ser forte e vir depois de ditongo, a palavra é oxítona (com a última sílaba mais forte). A nova regra não se aplica nesse caso. As palavras com antepenúltima sílaba mais forte (proparoxítonas) também não entraram na nova regra. Maiúscula e feiíssimo, por exemplo, continuam com acento.

Segundo caso: "oo" e "ee". Eles apareciam acentuados em alguns substantivos e formas verbais e agora não terão mais acento circunflexo. Exemplos: vôo (substantivo e 1ª pessoa do presente do indicativo do verbo "voar"), abençôo (verbo "abençoar" na 1ª pessoa do singular do presente do indicativo), lêem (verbo "ler" na 3ª pessoa do plural do presente do indicativo) e vêem (verbo "ver" na 3ª pessoa do plural do presente do indicativo) agora são escritos voo, abençoo, leem e veem respectivamente.

3-) Os acentos diferenciais, que servem para mostrar a diferença de significado entre as palavras com a mesma grafia sumiram na maioria dos casos. Agora, o "pêlo" (do cachorro) e o "pelo" (preposição) serão escritos da mesma forma, sem acento. Como saber a diferença? Pelo contexto da frase.

Exemplos:

"PÁRA" (verbo "parar" na 3ª pessoa do singular do presente do indicativo e na 2ª do singular no imperativo afirmativo) versus "PARA" (preposição).
Antes do Acordo Ortográfico escrevíamos assim: "Miguel não pára de tirar notas baixas. Não dá para continuar assim". Agora escreveremos assim: "Miguel não para de tirar notas baixas. Não dá para continuar assim".

"PÊLO" (substantivo) versus "PELO" (preposição).
Antes do Acordo Ortográfico escrevíamos assim: "Pelo que notei, este cachorro tem pêlo longo". Agora escreveremos assim: "Pelo que notei, este cachorro tem pelo longo".

"PÓLO" (substantivo) versus "POLO" (preposição arcaica por + lo).
Antes do Acordo: "Não se joga futebol no Pólo Norte". Agora: Não se joga futebol no Polo Norte".

Atenção! O acento diferencial em pôde versus pode foi mantido. É bom anotar também que a regra não vale para as palavras oxítonas. O verbo pôr continua a se diferenciar da preposição por pelo acento.

Para não esquecer:

"PÔDE" (verbo "poder" na 3ª pessoa do pretérito perfeito do indicativo) versus "PODE" (verbo "poder" na 3ª pessoa do presente do indicativo).
Exemplo: "Como você pôde fazer isso? Ninguém pode ser tão cruel!"

"PÔR" ( verbo no infinitivo) versus "POR" ( preposição).
Exemplo: "Por favor, você pode pôr os copos no armário?"

"TÊM" (verbo "ter" na 3ª pessoa do plural do presente do indicativo) versus "TEM" (verbo "ter" na 3ª pessoa do singular do presente do indicativo).
Exemplo: "Maria tem um apartamento; já seus pais têm uma casa na praia".

"VÊM" (verbo "vir" na 3ª pessoa do plural do presente do indicativo) versus "VEM" (verbo "vir" na 3ª pessoa no singular do presente do indicativo)
Exemplo: "Isabel vem à festa de ônibus; seus pais vêm de carro".

Atenção! Esta você pode escrever como quiser: A fôrma, aquela usada na cozinha, pode levar acento para ser diferenciada da palavra forma, como na frase "ela está em forma". Depois do Acordo, esse acento se tornou facultativo, isto é, você pode escolher entre fôrma e forma na hora de assar um bolo.


Ita est!

Prof. Zanon

Referência:
Revista Época. 5 de janeiro de 2009, página 83, São Paulo: Editora Globo.



segunda-feira, 4 de maio de 2009

Um conto de Jorge Luis Borges


Episódio do Inimigo


Tantos anos fugindo e esperando e agora o inimigo estava em minha casa. Da janela, vi-o subir penosamente pelo áspero caminho do cerro. Ajudava-se com um bastão, com um tosco bastão que em suas velhas mãos não podia ser uma arma, e sim um báculo. Custou-me a perceber o que esperava: a batida fraca na porta. Fitei, não sem nostalgia, meus manuscritos, o rascunho interrompido e o tratado de Artemidoro sobre os sonhos, livro um tanto anômalo aí, já que não sei grego. Outro dia perdido - pensei. Tive de forcejar com a chave. Temi que o homem desmoronasse, mas deu alguns passos incertos, soltou o bastão, que não voltei a ver, e caiu em minha cama, rendido.
Minha ansiedade o imaginara muitas vezes, mas só então notei que se parecia, de modo quase fraternal, como o último retrato de Lincoln. Deviam ser quatro da tarde.

Inclinei-me sobre ele para que me ouvisse.
-Pensamos que os anos passam apenas para nós – disse-lhe -, mas passam também para os outros. Aqui nos encontramos, por fim, e o que aconteceu antes não tem sentido.
Enquanto eu falava, ele desabotoara o casaco. A mão direita estava no bolso do paletó. Assinalava-me algo e senti que era um revólver.
Disse-me então com voz firme:
- Para entrar em sua casa, recorri à compaixão. Agora o tenho à minha mercê e não sou misericordioso.
Ensaiei algumas palavras. Não sou um homem forte e só as palavras podiam salvar-me. Atinei a dizer:

- É verdade que há tempos maltratei um menino, mas você já não é aquele menino nem eu aquele insensato. Além disso, a vingança não é menos fátua e ridícula que o perdão.
-Justamente porque já não sou aquele menino - replicou-me - tenho de matá-lo. Não se trata de uma vingança, mas de um ato de justiça. Seus argumentos, Borges, são meros estratagemas de seu terror para que eu não o mate. Você não pode fazer mais nada.
- Posso fazer uma coisa - respondi.
- O quê? - perguntou-me.
- Acordar.
E foi o que eu fiz.



Alguns comentários sobre esse conto:

Jorge Luis Borges, o autor desse conto, nasceu em Buenos Aires em 1899 e morreu em 1986. Borges povoava seus escritos de seres imaginários, universos insondáveis e labirintos. É considerado o maior poeta argentino de todos os tempos e é, sem dúvida, um dos mais importantes escritores da literatura mundial.

Episódio do Inimigo narra um sonho. A primeira pista para essa suposição está na referência a Artemidoro Daldis, que no século II d. C. escreveu o tratado mais antigo de que se tem notícia sobre sonhos. O título era Onirocrítica, que significa interpretação dos sonhos. Mas é somente no desfecho do conto que confirmamos essa suposição inicial.

O autor nos fornece elementos significativos para a composição da cena e das interpretações possíveis. Um narrador em primeira pessoa observa a chegada de um personagem fragilizado, mas que, mesmo assim, é considerado inimigo. O narrador dá a impressão de que esperava a chegada do inimigo desde muito tempo. O diálogo entre narrador e personagem não deixa dúvidas de que há, no ar, uma ameaça iminente de morte, por conta de um conflito antigo. O desfecho surpreendente soluciona o conflito de modo a misturar o universo ficcional (cena do sonho) com as possibilidades reais (acordar).

O conto permite diversas leituras. Uma delas seria o encontro, acontecido em um sonho, entre dois inimigos. Uma outra leitura nos permite inferir que o narrador na verdade não se encontra com um inimigo externo, mas com ele mesmo ou com seu passado, representado por um personagem velho e fraco.

Ita est!
Prof. Zanon

Referências:
BORGES, Jorge Luis. Obras completas. São Paulo: Globo, 1999. P. 167-168. v. 3.
MARCONDES, Beatriz; PARISI, Paula; BUSCATO, Lenira. Português: Dialogando com textos. Curitiba: Positivo, 2007. p. 50

domingo, 3 de maio de 2009

Carta de Marcos Bagno para a revista Veja

O escritor, tradutor, linguista e professor da UnB, Marcos Bagno, enviou uma carta ao editor da revista Veja em resposta à reportagem de capa do número 1725 dessa revista. Essa carta proporcionou aos leitores de Veja uma breve espiada no outro lado da controvérsia "defensores da Norma Culta versus linguistas", já que a revista prestigiou mais àqueles em detrimento destes.

Leiam a carta na íntegra no endereço:

http://www.marcosbagno.com.br/conteudo/arquivos/art_carta_urgente.htm

"A NÍVEL DE..."

O professor Pasquale chama-a de "desnecessária, empobrecedora e irritante". O Manual de Redação e Estilo do jornal O Estado de São Paulo a classificou como um "modismo desnecessário e condenável". Estamos falando da famigerada expressão "a nível de...".

O professor Cegalla disse que apesar de estar em voga, trata-se de uma expressão inútil, como exemplificada nesta frase de um jornal carioca: "A pesquisa da FGV mostrou estabilidade nos preços tanto a nível de atacado quanto no varejo". Bastaria ter escrito: "... tanto no atacado quanto no varejo". Uma frase como "A questão deve ser discutida a nível de diretoria" pode muito bem ser transformada em "A questão deve ser discutida pela diretoria". Outra como "O jogador sofreu uma contusão a nível de joelho" fica muito melhor quando mudamos para "O jogador sofreu uma contusão no joelho". A frase fica mais limpa, menos prolixa.

Convém lembrar que as locuções "ao nível de...", "no nível de...", "em nível de..." ou "no plano de..." nada tem com a história. Essas são legítimas locuções portuguesas com o sentido de "à mesma altura", como se vê em "Esse fenômeno só ocorre quando se está ao nível do mar", ou ainda, "Certos vícios rebaixam o homem ao nível dos brutos".

Não se sabe a origem desse modismo. A hipótese mais provável é que "a nível de..." tenha surgido da tradução literal da expressão inglesa at level of.

Ita est!

Prof. Zanon

Referências:
CIPRO NETO, Pasquale. Nossa língua curiosa. São Paulo: Publifolha, 2003.
CEGALLA, Domingos Paschoal. Dicionário de dificuldades da língua portuguesa. 2ª impressão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.
MARTINS, Eduardo. (org.) O estado de São Paulo. Manual de redação e estilo. São Paulo: O Estado de São Paulo, 1990.

Matérias mais antigas:

Minha foto
Sou um professor apaixonado pela educação, pela literatura, pela língua portuguesa e pela arte de escrever. Como tantos educadores, um idealista. Fascina-me a incomensurável capacidade de transformação do ser humano. Por que me ufano da minha profissão? Porque sei que quando leciono, não estou apenas passando conteúdos, mas também destruindo mitos, dogmas e raciocínios falaciosos que cerceiam a liberdade humana.